viagem de um não-diário

O quarto uma tristeza. O quarto vazio. O apartamento vazio, cozinha, sala, banheiro. O prédio vazio, a alma sem nada. O natal, o aniversário, o dia de nascer o dia de comemorar. Todos juntos sozinhos, unidos reunidos sem ninguém. Vazio. Cheio de sentimentos, ressentimentos, amarguras, ruínas, o quarto uma tristeza. O quarto vazio apertado, sem espaço pra respirar, sem tempo pra pensar, sem condições de. Nada. Vazio, o vazio uma tristeza que aperta o coração, se o coração se aperta, contrai, prensa, pensa que é alguma coisa importante pro ser, pro corpo, pro homem, pra mulher, pra criança e para o cachorro. Ninguém e um vazio repleto de nada, de ninguém repleto de pensamentos inconstantes, delirantes, penetrantes, mas estranhos, muito estranhos. Pensamentos que não deveriam ser pensados, quartos que não deveriam ser deixados, vazios e tristes. Cordas, mesas, ganchos, saltos, mortes. Quartos vazios e tristes repletos de morte. Morbidez enclausurada em um pedaço do pensamento ação agiu. Libertação do que não deveria ser libertado, solidão num quarto sem tempo triste sem espaço vazio. A solidão e as pessoas sozinhas no escuro conversando com o escuro, dialogando com o escuro, pensando com o escuro, com a mente escura, sem brilho, fosca, tosca, retorcida, transformada, recriada em um quarto uma tristeza um quarto um vazio. Uma linguagem efeméride que se desfaz no ar, se perde no retumbar, no reverberar das salas, sozinhas, amigas ínfimas, paredes que escutam, mas que não falam, mas que se falassem…! Diriam, se diriam, alguma coisa diriam, falariam da solidão, da frieza, da falta de contato, da insensatez, dos pés na parede, dos riscos de caneta, dos desenhos rabiscados, do sangue manchado, da pólvora que arde, trespassa, agride o bom senso, fere os bons costumes, estraçalha a metafísica, Kant, e canta, assobia, sozinha, sempre sozinha. Ainda temos também os venenos, os excessos, de remédios, legais, ilegais, drogas das mais várias, variedades, divertidas, engraçadas, morra de rir, ria da morte, brinque com a morte, brinque com os pulsos, ainda temos os pulsos. Temos a celebração da vida, celebração da morte, um brinde à mesa, um corte, um primeiro pedaço, és meu convidado, aceite, por favor. Uma dose, mais uma dose, mais uma dose é claro que eu nunca vou deixar de estar a fim, já que a noite nunca tem fim, e a vida vou passar sozinho, no meu quarto, no meu triste, no meu escuro, no meu somente meu, vou passar embriagado pra não perceber que o tempo passou, esse cretino passou, e que me tocou, e que eu continuo ébrio, sem perceber. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. Nada. Tudo.

3 Comentários

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3 Respostas para “viagem de um não-diário

  1. Magaly

    Estava engasgado aqui dentro de mim, agora saiu tudo. Alivio! UFA!

  2. Luciane (Túti)

    Muito bom!Despertando sentimentos!
    Valeu!

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