diário de uma (não)-viagem

Precisava de amor; meu amor foi viajar. Só deixou pra mim um bilhetinho. Meu amor foi pra Bahia, talvez volte qualquer dia. Primeiro dia sem amor. Primeira punheta. Primeira de muitas. Um diário de uma (não-) viagem; uma viagem constante alucinante dentro do universo quarto. Palavras rabiscadas sem sair do lugar, falando da mesma porra, da mesmíssima porra de sempre. Canivete jeans e uma fala inconseqüente, o jeans colado e uma vertigem adolescente. Em um mundo pós-moderno, eu sou o pós-adolescente, vivo minha vida como a de antes, como a melhor. Renovo cada dia, roubando a energia vital dos verdadeiros adolescentes, jovens indolentes, insolentes, envolventes. Carícias em meu corpo velho, cansado, castigado; mas experiente, exigente, conhecedor de muitos ambientes de muitas casas e casos. Elas com seus cabelos cheirosos, hidratados e sua imensa fome, gula e luxúria. Ansiedade adolescente, nervosismo ,respiração ofegante, coração batendo mais forte saltando à boca. Eu, com a loucura eternizada, com a voz já cristalizada, a voz que guia, a voz escutada. Elas nem sabem, não sabem…! Eu as uso e chupo todo seu néctar fonte da juventude, renovação da alma. Alma que não cansa. Meu amor foi viajar, meu amor nunca existiu. Só digo que tenho um amor, porque o certo é ter quem amar. Digo que amo, finjo que amo, amo que amo. Amo pra poder me expressar, pra poder gritar de raiva, de ódio, de paixão. Amo pra fazer. Amo pra ser. Amo pra ser o que sou, sou o que sou por amar o que não sei. Dizendo que amo, me sinto assim, um amante, errante, que vaga um vagar devagar inconstante pela rua noite lua minguante iluminando meu caminho de forma poética, da cor do amor. Esta cor brilhando em meu semblante, recupero todas energias novamente, todas as forças recupero e todas as desavenças com o tempo esqueço. O tempo, meu maior inimigo. Cada dia que passo, cada passo que passo, cada passo que passa, ando, esqueço, perpasso, compasso, num passar estranho, ao meu modo, ao meu jeito, ao meu tempo. Meu tempo não é o mesmo dos outros, não é. Meu tempo é tempo, sem espaço para o tempo, para os segundos, minutos, horas, dias, noites e luas. Meu tempo é tempo, sem espaço. Meu espaço é outro, meu espaço é o não-espaço, o não-lugar, nenhum entrelugar, nenhum entrelaçar me prende, sou solto no mundo, no espaço e no tempo. Por isso a não-viagem, o não-sair do lugar, porque eu sou um bebê chorão que chora de medo da morte, da morte não, da velhice, da esquisitice, da chatice chata resmungona velha chata. Não quero. Sou uma criança mimada, sou um porra loca, um inconseqüente, mas ainda me lembro de amar. Um amor estranho e confuso. Um amor ingrato. Um amor mentido. Um não-amor.

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