Arquivo do mês: fevereiro 2009

tal lugar

LUGAR ONDE EU QUERIA CHEGAR (finalmente; queria?)

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Cheguei. É um lugar. Lugar onde eu queria chegar. Nada acontece de novo, nada acontece demais. Tudo já aconteceu, parece. Parece acontecer. Esse lugar é um lugar onde se descobrem coisas, se testam coisas. Vou me testar, assim como um animal. Para que eu vou fazer isso?

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– Pode entrar.

– Tudo bem?

– Sim. Não.

– Qual teu nome?

– Meu nome é…

– Teu endereço?

– Meu endereço é…

– Por favor, RG e CPF.

– Tá aqui.

– Obrigada.

– Vou te fazer algumas perguntas, protocolo, ok?

– Usa ou já usou bebida alcoólica?

– Sim.

– Com que freqüência, quantos dias por semana?

– Quase todos, quase sempre que possível.

– Usa ou já usou drogas?

– Sim.

– Quais?

– Maconha, cocaína, benzina, cola, e quase qualquer outra coisa que dê alguma coisa.

– Ainda usa? Usa freqüentemente?

– Sempre que possível, sempre que necessário.

– No último ano, tu mantiveste relações com mais de uma pessoa?

– Sim.

– Tu usavas camisinha?

– Não.

– Por que não?

– Não sei.

– Tu conhecias bem a pessoa? Confiava? Não tinha na hora?

– Não sei. Na hora não se pensa muito sobre isso.

– Nesses casos, tu tinhas usado alguma droga? álcool conta também.

– Provavelmente sim.

– Tens tatuagem?

– Sim.

– Mais de uma?

– Sim.

– Bom, pode passar pra aquela sala ali, tu vai fazer o exame, quando terminar tu volta aqui pra assinar e conversarmos mais um pouco.

– Tudo bem?

– Sim. Não.

– Não te preocupa que não vai doer, é bem rápido.

– Como foi?

– Bem.

– Então, teu exame fica pronto em dez dias, mas eu acho que tu deverias mudar a tua vida, do jeito que dizes que levas, tu não vais durar muito tempo. Tens que te cuidar. Eu posso te passar o número de algumas casas de desintoxicação, acho que é um bom começo, que achas?

– Não precisa. Tô bem.

– Não, com certeza não estás. Sabes quantas pessoas contraíram o vírus HIV, sem contar com outras doenças como sífilis, gonorréia, hepatite, e outras tantas, sabes?

– Não. Nem quero. Só quero viver. Nem que seja uma não-vida.

– Tu precisas te cuidar, tu és tão novo. Pensa bem.

– Pensando bem…

– O quê?

– Quando eu era pequeno. Não era pra eu ter crescido. Eu fui sobrevivendo. Não sei como. Não era. Quando eu era pequeno eu quase morri, eu deveria ter morrido. As pessoas não percebem que precisam morrer e assim vão prolongando suas vidas, da maneira mais egoísta possível. Eu sou assim também. Eu fui assim. Agora faz sentido. Só pode ser isso.

– Como assim? Do que tu tá falando?

– Peraí. Me diz uma coisa? Por que eu vim aqui?

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“muita saúva e pouca saúde os males do brasil são”

Mas quando estava para chegar, quase chegando, vejo, leio, pichado chapado em vermelho em um muro branco de uma instituição pública: “MUITA SAÚVA E POUCA SAÚDE OS MALES DO BRASIL SÃO”; mas que coisa é essa? Que coisa extraordinária é essa? Que frase é essa? Que aspas são essas? Que frase é essa que dá conta de meus pensamentos e sentimentos? Que frase é essa sem autor? Quem é esse autor? Quem é esse herói que pensa o que eu penso que diz o que eu penso que sente o que eu penso? Quem é? De quem é essa voz junta de outras vozes, inclusive a minha, que urra, que clama, reclama, berra ao mundo, grita em meus ouvidos me deixa tonto zonzo atordoado com seu barulho irritante e me faz refletir sobre coisas que eu sempre penso, sempre penso que quero esquecer, sempre esquecendo o que ia (devia) pensar. Que voz é essa que cega meus ouvidos e me força a ver coisas que não queria ouvir? Não quero nada. Talvez seja este o problema. Talvez seja este o meu problema Talvez eu esteja doente. Talvez eu esteja morrendo. Não sei se estou morrendo de dentro para fora ou de fora para dentro. Estou sendo corroído, perseguido, por algo que não sei. Algo que não sei sempre à minha sombra, ao meu alcance. Pouca saúde é o meu mal. Pouca saúde é o mal que eu escolhi. Meus heróis morreram de overdose. Outros viraram estrelas e hoje brilham como a ursa maior. Sinto que não é este meu destino. Sinto que vou morrer sozinho. Todos morremos sozinhos. Sinto que sempre estarei sozinho, sinto que sempre estive. Sinto que não sinto nada. Sinto que minto, que invento. Sinto que não tenho destino, propósito ou objetivo. Sinto que sou um corpo vazio, um copo vazio, sinto que não-sou. Simplesmente sinto que não quero me importar com nada. Se sou um herói, sou do tipo sem nenhum caráter. Me importar com nada; ai… que preguiça!…

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caminhada pensante

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Enumeração de Diversas Frases (ou seriam pensamentos?)

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Das duas uma: George Orwell, de uma forma extraordinariamente sobrenatural, antecipou o futuro ou serviu de escola para eles.

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“O povo não deveria temer seu governo, o governo deveria temer seu povo” (essa frase não é minha, por isso as aspas imaginárias)

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“O homem é um animal político” (infelizmente para a maioria dos animais, políticos e não-políticos)

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Todas as mudanças são sempre superficiais, sempre tangem um pedaço, uma parte, um pouco do todo. Nunca é o todo, nunca é profundo, nunca é tudo. A mudança tem que ser drástica, mas drástica de verdade.

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Quando começamos a descobrir certas verdades, começamos também a preferir certas mentiras. Ou melhor, certas antigas verdades.

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O mal deve ser cortado pela raiz. Mas cadê essa maldita raiz?

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As pessoas que mais parecem felizes às vezes nem são às vezes nem sou. Que triste.

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(e assim termina minha enumeração de frases diversas, talvez pensamentos, pois cheguei onde eu queria chegar)

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panfleto

O Panfleto

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Frente:

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“Nós somos preto e branco. Com variações para todos os lados mas nunca verdes. Nunca somos verdes. Nunca verdes.”

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Verso:

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“Nós somos o vírus. É a nossa “natureza”, nosso objetivo.  Nós, seres-humanos. Sempre há vida. Em tudo existe vida. O planeta vive. A natureza dá um jeito.

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> Tem Jeito <

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Consciência de que somos malevolentes à natureza. Não podemos mudar. Qualquer tentativa é vã. Uma única saída. O *inexistir – deixar de existir. Abandonar. Tudo que presta no ser humano é para poucos. Tudo que é ruim é de todos. A diferença dos seres-humanos para os animais é o dinheiro, e este é sua desgraça.”

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tenho impressão

que já pensei algo assim

assim

algo

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não faz sentido

+ NÃO FAZ SENTIDO +

* Não precisa pensar

* Não precisa ler

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7 – Ostracismo

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Assim eu me sinto.

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Encontrei um homem gritando, discursando, todo de branco. Fui ao seu encontro, fui conversar com ele. O branco representava o nada. Mas o nada é nada. Não pode ser representado. Ainda mais pela junção de todas as cores. Disse que era conceitual. Disse que em outros pontos, outras pessoas totalmente vestidas de preto. Disse que era conceitual. Eu por outro lado, disse que me parecia dicotômico, contrastante, quase excludente. Disse que não. Disse que era conceitual. Tudo bem. Me entregou um panfleto:

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faz sentido não

+ NÃO FAZ SENTIDO +

* Não precisa ler

* Não precisa pensar


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5 – Ocioso Cavalheiro Ostentando Abraços Afagos

6 – Opressor Totalmente Lancinante

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Ela me convidou pra ir jantar na casa de uma amiga dela. Pediu pra levar um vinho. Será que ela vai me dar? Acho que sim. Senão, não pediria vinho. Será que a amiga dela é gostosa? Podia me dar também. Mesmo que não fosse, podia. Sempre tive vontade. Acho que todo mundo tem.

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– Então. Vocês vão me dar?

(que merda$$$ olha o que eu perguntei$$$ eu sou um louco$$$)

– Sim.

(puta merda$$$ olha o que elas responderam$$$ elas são umas loucas$$$)

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Me sinto agora como Alex ao som de William Tell Overture.

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beijos – cigarros de maconha – uuuuuuuh – aaaaaaaaaah – beijos – apertos- mordidas – nudez – corpo no corpo – pele quente – mão na nuca – puxando os cabelos – puxando a cintura – chupando – penetrando – chupando – penetrando – troca – troca – agora uma – agora outra – descansa – respira – fuma outro cigarro – pega ar na janela – mais penetração – mais tudo de novo – mais álcool – mais louco – louca – louca – gozo – goza – goza – engole – pede bis – pede repeteco – toma repeteco – toma – toma – toma – pára – descansa – de novo – e de novo – cheira – uuuuuh – aaaaaaaaah – renova – penetra – goza – tudo de novo – novo de tudo – drogas- álcool – loucuras – sexo – nexo – fim da temporada sexual –

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uma parte de um todo

Uma parte de um todo

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– Peraí. Me diz uma coisa? Por que eu vim aqui?

– Ué. Pra saber da tua saúde. Pra saber se tá tudo bem. Se tu tá bem.

– Não. Não é isso.

– Então. O quê?

– Tentar prolongar minha vida. Tentar viver quando deveria morrer. Não quero isso. Não é o certo.

– É sim. É normal. É natural.

– Não. Não é não.

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(Nunca mais voltei lá. Nem em nenhum outro lugar parecido. Depois de dez dias o exame ficou pronto. Não fui buscar. Não precisava. Já sabia o resultado. Depois de seis meses eles me procuraram. Depois de seis meses eu já estava morto.)

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