tal lugar

LUGAR ONDE EU QUERIA CHEGAR (finalmente; queria?)

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Cheguei. É um lugar. Lugar onde eu queria chegar. Nada acontece de novo, nada acontece demais. Tudo já aconteceu, parece. Parece acontecer. Esse lugar é um lugar onde se descobrem coisas, se testam coisas. Vou me testar, assim como um animal. Para que eu vou fazer isso?

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– Pode entrar.

– Tudo bem?

– Sim. Não.

– Qual teu nome?

– Meu nome é…

– Teu endereço?

– Meu endereço é…

– Por favor, RG e CPF.

– Tá aqui.

– Obrigada.

– Vou te fazer algumas perguntas, protocolo, ok?

– Usa ou já usou bebida alcoólica?

– Sim.

– Com que freqüência, quantos dias por semana?

– Quase todos, quase sempre que possível.

– Usa ou já usou drogas?

– Sim.

– Quais?

– Maconha, cocaína, benzina, cola, e quase qualquer outra coisa que dê alguma coisa.

– Ainda usa? Usa freqüentemente?

– Sempre que possível, sempre que necessário.

– No último ano, tu mantiveste relações com mais de uma pessoa?

– Sim.

– Tu usavas camisinha?

– Não.

– Por que não?

– Não sei.

– Tu conhecias bem a pessoa? Confiava? Não tinha na hora?

– Não sei. Na hora não se pensa muito sobre isso.

– Nesses casos, tu tinhas usado alguma droga? álcool conta também.

– Provavelmente sim.

– Tens tatuagem?

– Sim.

– Mais de uma?

– Sim.

– Bom, pode passar pra aquela sala ali, tu vai fazer o exame, quando terminar tu volta aqui pra assinar e conversarmos mais um pouco.

– Tudo bem?

– Sim. Não.

– Não te preocupa que não vai doer, é bem rápido.

– Como foi?

– Bem.

– Então, teu exame fica pronto em dez dias, mas eu acho que tu deverias mudar a tua vida, do jeito que dizes que levas, tu não vais durar muito tempo. Tens que te cuidar. Eu posso te passar o número de algumas casas de desintoxicação, acho que é um bom começo, que achas?

– Não precisa. Tô bem.

– Não, com certeza não estás. Sabes quantas pessoas contraíram o vírus HIV, sem contar com outras doenças como sífilis, gonorréia, hepatite, e outras tantas, sabes?

– Não. Nem quero. Só quero viver. Nem que seja uma não-vida.

– Tu precisas te cuidar, tu és tão novo. Pensa bem.

– Pensando bem…

– O quê?

– Quando eu era pequeno. Não era pra eu ter crescido. Eu fui sobrevivendo. Não sei como. Não era. Quando eu era pequeno eu quase morri, eu deveria ter morrido. As pessoas não percebem que precisam morrer e assim vão prolongando suas vidas, da maneira mais egoísta possível. Eu sou assim também. Eu fui assim. Agora faz sentido. Só pode ser isso.

– Como assim? Do que tu tá falando?

– Peraí. Me diz uma coisa? Por que eu vim aqui?

2 Comentários

Arquivado em folhetins digitais

2 Respostas para “tal lugar

  1. Ms.Riverside

    “Vou te fazer algumas perguntas, protocolo, ok?”
    E também deu conselhos [“protocolo”] porque dançar conforme a música também é “protocolo”… que pena…

  2. Luciane (Túti)

    Estive um pouco ausente, agora voltei e me atualizei. O que leio aqui mexe muito comigo, desperta sentimentos estranhos, sinto na alma. É muuito bom. Beijos e até a próxima postagem.

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