o trem sumindo e duas lembranças

Depois da loucura, depois que o trem sumiu. Depois que o trem sumiu, outras coisas foram sumindo. Foram sumindo com a luz do trem. Com o som do trem. Com a cor do trem. Junto com o trem, fui deixando de existir. Parecia apropriado. Deixando de ser cidadão. Joguei fora meus documentos. Esqueci minha família; meus pais, meus amigos. Esqueci minha pátria; estado, país ou nação. Vivia como um pária. Perdi meu nome num emaranhado de tantos outros. Me chamava qualquer coisa. Me chamava isso. Me chamava aquilo. Não me chamava mais. Mais nada. Nada. Regressar a um estado anterior. Regressão – involução. Regredir ao estado de natureza, harmoniosamente natural e dotado de vida como um todo. Adaptar-se ao meio e não adaptar o meio a si.

E dentro de um túnel, junto com o trem, me perdi para sempre. Nesta confusão, disfunção, nesta insensatez, duas lembranças vieram a tona. Duas lembranças, era tudo o que me restava. Duas lembranças, como pode? Martelavam, torturavam meus pensamentos. Duas lembranças. Díspares. Sem conexão. Duas. Um rompante alucinante e estranhíssimo. Uma explosão de soluços e a vida toda de minha mãe eclodiu e implodiu meu ser. As pernas bambas. Os olhos, os olhos lacrimejantes, chorosos. A história de minha mãe. Jamais poderia articular esta história. Era uma história impossível de contar, mas eu sentia ela com todas as forças, sentia como se soubesse das mínimas particularidades, dos mais ínfimos detalhes, mas sentia, sentia de tal forma, sentia que não poderia contar, expressar, não poderia articular. Mas sentia mais do que gostaria. Percebi desnecessária de contar. Triste demais, imagética demais para contar. História inarticulável.

Minha outra lembrança é o motivo de estar aqui, neste buraco. Engraçado. Minhas duas memórias partem de um mesmo princípio. Uma explica porquê estou neste mundo, ou como cheguei neste mundo. Outra explica porquê estou neste buraco, mais do que como cheguei nele. Engraçado, minhas únicas duas lembranças.

Primeira lembrança, minha mãe, como cheguei neste mundo, história inarticulável. Segunda lembrança, uma garota, a loira, uma data, uma notícia, uma decisão sem-pensar e cá estou eu, quase que intuitivamente, aceitando ou alterando meu destino. Fazendo algo que não sei. Procurando por algo que não sei. Lutando ou deixando de lutar por algo que não sei se acredito, se existe. Fazendo algo egoísta ou para o bem da humanidade ou nada porque sou nada. É isso. Sou nada porque nada sei. Sou nada. Nada.

2 Comentários

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2 Respostas para “o trem sumindo e duas lembranças

  1. Então és nada porque nada sabes.
    Sabes que não sabes, oras. E és, portanto, porque te vales da consciência.
    Desculpas por intrometer-me. Beijos.

  2. Meire

    Ler o que você escreve é delicioso!
    Dá vontade de ler mais e de conhecer mais sobre sua vida, sua pessoa.
    Parabéns!

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